Autor: por Mauro Camargo/Michely Figueiredo
Segurança portuária deve integrar toda a operação
Luciana Fuschini Nave defende segurança integrada à alta direção, tecnologia, pessoas e fornecedores para proteger portos contra novas ameaças.
SEGURANÇA SISTÊMICA
Segurança precisa atravessar todo o porto, diz consultora
Luciana Fuschini Nave defende estrutura ligada à alta direção e integração de tecnologia, pessoas, fornecedores e áreas críticas contra novas ameaças
Segurança portuária não pode mais ser entendida apenas como controle de acesso, proteção do perímetro ou resposta a uma ocorrência. Num ambiente em que ataques cibernéticos, sabotagem, infiltração criminosa e riscos na cadeia de fornecedores podem interromper operações inteiras, a segurança precisa atravessar todos os setores do terminal. A tese foi apresentada por Luciana Fuschini Nave, presidente da mesa do Painel 5 do II Congresso Nacional Portuário, realizado em Santos.
Consultora especializada em segurança estratégica e infraestruturas críticas, Luciana propôs que a instalação portuária seja vista como um organismo vivo. Cada departamento cumpre uma função própria, mas depende dos demais para manter a operação. Nesse desenho, a segurança não seria apenas a pele que protege o corpo: funcionaria como um sistema imunológico presente em toda a organização, capaz de detectar ameaças, conectar informações e produzir a primeira resposta.
A analogia levou a uma revisão das responsabilidades internas. A tecnologia da informação participa da segurança porque um ataque cibernético pode paralisar equipamentos, sistemas de agendamento, movimentação e controle. Recursos humanos também ocupa posição estratégica: é a porta de entrada de trabalhadores e prestadores, responsável por processos de seleção, identificação e acompanhamento. Suprimentos, por sua vez, decide quem fornece produtos e serviços e pode, sem diligência adequada, abrir espaço para empresas controladas ou utilizadas pelo crime organizado.
Luciana citou como exemplo empresas formalmente constituídas, com tributos em dia e preços competitivos, que podem ser usadas para infiltrar drogas em operações regulares. O risco não se limita a companhias de fachada. Organizações criminosas conseguem montar estruturas empresariais capazes de disputar contratos legítimos e utilizar atividades como o abastecimento de navios para transportar mercadorias ilícitas. Por isso, uma proposta excessivamente barata deve ser analisada também sob a ótica da segurança.
A manutenção de áreas críticas foi outro ponto destacado. Subestações elétricas, sistemas de água e instalações sensíveis precisam de camadas adicionais de proteção porque podem ser alvo de sabotagem. Uma falha ou ataque nessas estruturas é capaz de interromper o terminal, causar acidentes ou atingir trabalhadores. A avaliação de risco, portanto, deve percorrer todas as áreas e identificar vulnerabilidades físicas, humanas, tecnológicas e informacionais.
Para a presidente da mesa, empresas com maior maturidade já retiraram a segurança da subordinação a departamentos operacionais e a colocaram em ligação direta com o principal executivo. A mudança reconhece que a área conhece as brechas do negócio inteiro e precisa de autoridade para atuar. Quando a segurança permanece isolada ou é tratada apenas como custo, decisões de investimento podem fragilizar controles indispensáveis.
Luciana também abriu uma discussão jurídica sobre verificação de antecedentes de pessoas que trabalham em ambientes críticos. Reconheceu a presunção de inocência e os limites legais aplicáveis à contratação, mas argumentou que funções de confiança em instalações portuárias têm peculiaridades que precisam ser consideradas. O desafio consiste em construir critérios proporcionais, juridicamente sustentáveis e compatíveis com a proteção de direitos, sem ignorar riscos concretos de infiltração.
Essa tensão reapareceu no debate sobre biometria. Dados biométricos são classificados como sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados e exigem base legal, finalidade clara e proteção reforçada. Ao mesmo tempo, o controle biométrico pode ser indispensável para confirmar a identidade de quem entra em áreas restritas. A solução indicada no painel foi regulamentar o tratamento, definir responsabilidades e impedir que a LGPD seja usada como justificativa genérica para abandonar controles necessários.
No plano externo, Luciana descreveu um setor submetido a excesso de regulação, sobreposição de competências, judicialização e limitações materiais do Estado. Faltam servidores, equipamentos e meios operacionais em algumas instituições, enquanto investidores recebem cobranças por rapidez e competitividade. A conta da ineficiência, advertiu, alcança empresas, trabalhadores, logística, comércio exterior e consumidor final.
Por isso, segurança e competitividade não devem ser apresentados como forças adversárias. Um porto vulnerável perde cargas, reputação e mercados; um porto incapaz de adaptar regras e processos também perde eficiência. O caminho está na integração entre órgãos públicos, empresas e sistemas de informação. Foi essa linha que orientou as perguntas feitas aos demais participantes, sobre paralisações, regulação aduaneira, sanções internacionais e repressão ao tráfico.
Ao encerrar, Luciana resumiu o painel em uma palavra: integração. Público com público, público com privado, segurança com operação e tecnologia com governança. A principal mudança proposta é cultural. Segurança não pertence apenas ao vigilante, à polícia ou ao responsável pelo plano de proteção. Pertence a quem contrata, compra, desenvolve sistemas, mantém equipamentos, movimenta cargas e decide o orçamento. Num porto conectado, qualquer elo pode produzir vulnerabilidade — ou tornar toda a cadeia mais resistente.
Essa abordagem também exige métricas. Ocorrências evitadas nem sempre aparecem no balanço, mas paralisações, perdas de carga, multas e danos reputacionais são mensuráveis. A alta direção precisa acompanhar riscos, investimentos e planos de resposta com o mesmo rigor dedicado à produtividade.
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