Autor: por Mauro Camargo/Michely Figueiredo
Educação exige pacto nacional contra desigualdades
Pedro Cunha Lima defende creches, alfabetização na idade certa e valorização dos professores para reduzir desigualdades.
ACERTO DE ROTA
“Fazer educação no Brasil é tirar um atraso histórico”, afirma Pedro Cunha Lima
Ex-deputado federal defende pacto nacional pela educação, ampliação de vagas em creches, alfabetização na idade certa e valorização do magistério como caminhos para reduzir desigualdades no país.
O professor, mestre em Direito e ex-deputado federal Pedro Cunha Lima afirmou que o Brasil ainda enfrenta um atraso histórico na educação pública e defendeu uma mobilização nacional para ampliar vagas em creches, fortalecer a alfabetização na idade certa e valorizar a carreira docente. A declaração foi feita durante palestra no IV Congresso Nacional de Gestão Pública, nesta quinta-feira (21), em Brasília.
“Fazer educação no nosso país é tirar um atraso”, resumiu o palestrante ao abordar os desafios históricos da educação brasileira e a necessidade de colaboração entre União, estados, municípios e sociedade civil.
Segundo Pedro Cunha Lima, o país universalizou o acesso ao ensino básico com cerca de um século de atraso em relação a outras nações, o que ainda produz impactos diretos na desigualdade social e nos indicadores educacionais.
“Quando alguém diz que a educação pública antigamente era melhor, é preciso corrigir. Antigamente nós tínhamos uma educação excludente, uma educação para poucos”.
Durante a palestra, o professor defendeu que o Brasil precisa construir uma grande política de colaboração federativa na educação, semelhante ao que o Sistema Único de Saúde representa na saúde pública.
“O SUS é uma âncora de colaboração federativa. Eu sonho que o Brasil também tenha um milagre de colaboração na educação”.
Um dos principais pontos abordados foi a situação da primeira infância. Pedro Cunha Lima chamou atenção para o déficit de vagas em creches e criticou a falta de participação efetiva dos governos estaduais no financiamento dessa etapa da educação.
Segundo ele, o Plano Nacional de Educação previa que o Brasil alcançasse 50% de cobertura de creches para crianças de zero a três anos, mas o país ainda está distante da meta.
“O último dado mostra que apenas 36% das crianças de zero a três anos têm vaga em creche. Entre as mais pobres, esse percentual é ainda menor”, alertou.
Ele defendeu maior participação dos estados na construção e manutenção de creches, além de um pacto nacional para garantir alfabetização na idade certa. Citou estudos que apontam que crianças alfabetizadas até o fim do segundo ano do ensino fundamental têm cerca de 80% de chance de manter uma trajetória escolar de sucesso. Quando isso não ocorre, o índice cai drasticamente, chegando a apenas 30%.
“Se você mudar o começo da história, você muda a história inteira”.
Pedro Cunha também criticou a baixa atratividade da carreira docente no Brasil e afirmou que o país precisa transformar o magistério em uma profissão valorizada socialmente e financeiramente.
“A gente ainda vive num país em que cada vez menos jovens querem ser professores”.
Ao comparar experiências internacionais, o ex-deputado citou países como Finlândia, Coreia do Sul, Chile e Singapura, que adotaram políticas de incentivo para atrair os melhores estudantes para o magistério.
Segundo ele, o Brasil precisa criar mecanismos semelhantes, com bolsas, intercâmbios e planos de carreira mais atrativos para professores. “A transformação da educação passa necessariamente pela valorização do professor”, reforçou.
Pedro Cunha Lima também criticou práticas de interferência política em escolas públicas e defendeu gestão técnica nas unidades de ensino. “Educação pública não pode ser instrumento político nem curral eleitoral”.
Ao encerrar a palestra, o professor afirmou que o combate à desigualdade no Brasil passa diretamente pela educação e pediu maior engajamento da sociedade na defesa de políticas públicas voltadas à infância e ao ensino de qualidade.
“O Brasil aumentou a desigualdade. Onde é que estamos errando? É claro que é na educação. E será pela educação que vamos mudar essa realidade”.
O IV Congresso Nacional de Gestão Pública é uma realização da Academia Brasileira de Formação e Pesquisa (ABFP) com coorganização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).